Os contos de
Beedle o Bardo
O segundo
conto
A fonte da
sorte
No alto de um
morro, em um jardim encantado envolto por muros altos e protegido
por poderosa magia, jorrava a Fonte da Sorte. Uma vez por ano,
entre o nascer e o pôr-do-sol do dia mais longo do ano, um único
infeliz recebia a oportunidade de competir para chegar à fonte,
banhar-se em suas águas e ter sorte a vida inteira. No dia
atrazado, centenas de pessoas viajavam de todo o reino para chegar
ao jardim antes do alvorecer. Homens e mulheres, ricos e pobres,
jovens e velhos, dotados ou não de poderes mágicos reuniam-se no
escuro, cada qual na esperança de ser o escolhido para entrar no
jardim. Três bruxas, com seus problemas e preocupações,
encontraram-se nas cercanias da multidão, e contaram umas às outras
suas tristezas enquanto esperavam o sol nascer. A primeira, cujo
nome era Asha, sofria de uma doença que nenhum curandeiro conseguia
eliminar. Ela esperava que a fonte fizesse desaparecer os seus
sintomas e lhe concedesse uma vida longa e feliz.
A segunda, cujo
nome era Altheda, tivera sua casa, seu ouro e sua varinha roubados
por um bruxo malvado. Ela esperava que a fonte a aliviasse de sua
fraqueza e pobreza. A terceira, cujo nome era Amata, fora
abandonada por um homem a quem amava profundamente, e acreditava
que seu coração partido jamais se recuperaria. Esperava que a fonte
aliviasse sua dor e saudade. Apiedando-se umas das outras, as três
mulheres concordaram que, se lhes coubesse a chance, elas se
uniriam e tentariam chegar à fonte juntas. O primeiro raio de sol
rasgou o céu, e uma fresta se abriu no muro. A multidão avançou
cada pessoa exigindo, aos gritos, a bênção da fonte. Plantas
rastejantes do interior do jardim serpearam pela massa ansiosa e se
enrolaram na primeira bruxa, Asha. Ela agarrou o pulso da segunda
bruxa, Altheda, que segurou com força as vestes da terceira bruxa,
Amata.
E Amata se
enredou na armadura de um cavaleiro de triste figura que montava um
cavalo esquelético. As plantas rastejantes puxaram as três bruxas
pela fresta do muro, e o cavaleiro foi derrubado do seu ginete
atrás delas. Os gritos furiosos da multidão desapontada se ergueram
no ar matinal, e silenciaram quando os muros do jardim se fecharam
mais uma vez. Asha e Altheda se zangaram com Amata, que,
acidentalmente, trouxera junto o cavaleiro.
— Apenas um
pode se banhar na fonte! Já será bem difícil decidir qual de nós
será sem adicionar mais um! Ora, o Cavaleiro Azarado, como era
conhecido nas terras além muros, observou que as mulheres eram
bruxas e, não sendo ele dotado de magia, nem de grande perícia em
torneios e duelos com espadas, nem de nada que o distinguisse como
homem não mágico, ficou convencido de que não havia esperança de
chegar à fonte antes das três mulheres. Anunciou, portanto, sua
intenção de sair do jardim. Ao ouvir isso, Amata se aborreceu
também. - Medroso! — ela o censurou. — Desembainhe sua
espada, Cavaleiro, e nos ajude a atingir a nossa meta. E, assim, as
três bruxas e o infeliz cavaleiro se aventuraram pelo jardim
encantado, onde ervas raras, frutos e flores cresciam em abundância
à margem de caminhos ensolarados. Eles não encontraram obstáculo
algum até alcançar o sopé do morro em que se erguia a fonte. Ali,
enrolado na base do morro, havia um monstruoso verme branco,
inchado e cego. À aproximação do grupo, ele virou uma cara feia e
malcheirosa e proferiu as seguintes palavras:
"Paguem-me a
prova de suas dores."
O Cavaleiro
Azarado sacou a espada e tentou matar o bicho, mas a espada se
partiu. Então Altheda atirou pedras no verme, enquanto Asha e Amata
experimentaram todos os feitiços que poderiam subjugá-lo ou
hipnotizá-lo, mas o poder de suas varinhas não foi mais eficaz do
que a pedra da amiga ou a espada do cavaleiro: o verme não quis
deixá-los passar.
O sol foi subindo
sempre mais alto no céu e Asha, desesperada, começou a chorar.
Então o enorme verme encostou o focinho no rosto dela e bebeu suas
lágrimas. Saciada a sede, o verme deslizou para um lado e sumiu por
um buraco no chão.
Exultantes com o
sumiço do verme, as três bruxas e o cavaleiro começaram a subir o
morro, certos de que chegariam à fonte antes do meio-dia. A meio
caminho da subida íngreme, porém, eles encontraram palavras
gravadas no chão.
Paguem-me os
frutos do seu árduo trabalho.
O Cavaleiro
Azarado apanhou sua única moeda e colocou-a na encosta relvada, mas
ela rolou para longe e se perdeu. As três bruxas e o cavaleiro
continuaram a subir, e, embora tivessem andado durante horas, não
avançaram um único passo; o topo continuava distante e a inscrição
permanecia no chão diante deles.
Todos se sentiram
desanimados quando viram o sol passar sobre suas cabeças e começar
a declinar em direção ao longínquo horizonte, mas Altheda andou
mais rápido e, empenhando mais esforço do que os demais,
estimulava-os a seguir seu exemplo, embora tampouco avançasse na
subida do morro encantado. — Coragem, amigos, não fraquejem!
— gritava ela, enxugando o suor do rosto. A medida que as
gotas caíam, cintilantes, na terra, a inscrição que bloqueava o
caminho desaparecia, e eles descobriram que podiam prosseguir.
Encantados com a remoção do segundo obstáculo, correram para o alto
o mais rápido que puderam, até que, por fim, avistaram a fonte,
refulgindo cristalina em meio a árvores e flores. Antes de
alcançá-la, no entanto, encontraram barrando o seu caminho um
riacho que circundava o topo do morro. No fundo da água
transparente havia uma pedra lisa com as seguintes
palavras:
Paguem-me o
tesouro do seu passado.
Cavaleiro Azarado
tentou atravessar o curso d'água flutuando sobre seu escudo, mas
afundou. As três bruxas o tiraram de dentro do riacho e tentaram
saltar por cima da água, mas o riacho não as deixou atravessar, e
todo o tempo o sol ia baixando pelo céu. Eles começaram, então, a
refletir sobre o significado da mensagem na pedra, e Amata foi a
primeira a compreendê-la. Apanhando a varinha, apagou da mente
todas as lembranças dos momentos felizes que passara com o seu amor
desaparecido e deixou-as cair na correnteza. O riacho as levou para
longe, deixando aparecer pedras planas e, finalmente, as três
bruxas e o cavaleiro puderam atravessar em direção ao topo do
morro. A fonte refulgiu diante dos quatro, emoldurada pelas ervas e
flores mais raras e mais belas que jamais tinham visto. O céu
coloriu-se de vermelho, e chegou a hora de decidir qual deles iria
se banhar. Antes, porém, que chegassem a uma conclusão, a franzina
Asha tombou no chão. Exausta com o esforço da subida, estava à
beira da morte. Seus três amigos a teriam carregado até a fonte,
mas Asha, em agonia mortal, lhes pediu que não a tocassem. Então
Altheda se apressou a colher as ervas que julgou mais úteis,
misturou-as na cabaça de água do Cavaleiro Azarado e levou a poção
à boca de Asha. Na mesma hora, Asha conseguiu se pôr de pé. Além
disso, todos os sintomas de sua terrível enfermidade tinham
desaparecido.
— Estou
curada! — exclamou ela. — Não preciso da fonte; deixem
Altheda se banhar! Altheda, porém, estava ocupada colhendo mais
ervas em seu avental. — Se fui capaz de curar essa doença,
posso ganhar muito ouro! Deixem Amata se banhar! O Cavaleiro
Azarado se inclinou e, com um gesto, indicou a fonte a Amata, mas
ela sacudiu a cabeça. O riacho tinha lavado todos os seus
desapontamentos de amor, e ela percebia agora que o antigo amado
fora insensível e infiel, e que era uma grande felicidade ter se
livrado dele. — Bom cavaleiro, o senhor deve se banhar, em
recompensa por toda a sua nobreza! — disse ela ao Cavaleiro
Azarado. Então ele avançou a armadura tinindo aos últimos raios do
sol poente e se banhou na Fonte da Sorte, admirado por ter sido o
escolhido entre centenas de outros e atordoado com a sua
inacreditável fortuna. Quando o sol se pôs no horizonte, o
Cavaleiro Azarado se ergueu das águas sentindo-se glorioso com o
seu triunfo, e se atirou, ainda vestindo a armadura enferrujada,
aos pés de Amata, a mulher mais bondosa e bela que já contemplara.
Alvoroçado com o sucesso, pediu sua mão e seu coração, e Amata, não
menos feliz, percebeu que encontrara um homem que merecia os dois.
As três bruxas e o cavaleiro desceram o morro juntos, de braços
dados, e os quatro levaram vidas longas e venturosas, sem jamais
saber nem suspeitar que as águas da fonte não possuíam encanto
algum.
Comentários de
Alvo Dumbledore sobre "A Fonte da Sorte"
A Fonte da Sorte"
é um eterno favorito, tanto assim que foi tema da única tentativa
de introduzir uma pantomima de Natal nos festejos de
Hogwarts.
O nosso mestre de
Herbologia à época, professor Herbert Beery,1 um entusiástico
aficionado do teatro amador, propôs uma adaptação dessa muito
apreciada história infantil como uma surpresa especial de Natal
para colegas e alunos. Eu era então um jovem professor de
Transfiguração, e Herbert me encarregou dos "efeitos especiais",
que incluíam providenciar uma Fonte da Sorte que funcionasse
plenamente e a miniatura de um morro coberto de vegetação, que as
nossas três heroínas e o nosso herói pareceriam escalar, enquanto a
fonte afundaria lentamente no palco e desapareceria de
vista.
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